29 fevereiro 2008

Preconceito se aprende na escola


Essa semana fui pega de surpresa nos corredores da UFMA pela minha colega de curso Lucileide Martins, muito feliz por sinal já que estava indo apresentar sua monografia. aproveitou a oportunidade e me convidou para assistir.
Nunca tinha tido a oportunidade de ver uma apresentação desse tipo, ainda mais com um tema tão interessante:

"A representação social do negro nos livros didáticos".

Interessante pelo olhar critico sobre os até então inocentes livros utilizados pelas crianças de 1ª a 4ª serie do ensino fundamental das escolas municipais de São Luis.Dentro deste conjunto foram estudados apenas os livros de História, e a maneira como os professores ministravam os conteúdos relacionados aos negros na sala de aula, e como enxergavam o tratamento dado ao negro nestes livros.
Através do estudo das imagens contidas neste livros pode-se notar que na maioria das vezes as imagens mostravam o negro em situações estereotipadas, de marginalidade social, desestruturação familiar e econômica (tinha um livro em que 100% das imagens estavam neste perfil).Quando comparadas as imagens nas quais aparecem pessoas brancas é que se pode notar esse processo discriminatório.
O mais grave nisso tudo era a falta de percepção dos professores para esta peculiaridade. A maioria, com excessão de uma professora, afirma que os livros não tratam o negro de maneira estereotipada e não tem conhecimento de nenhuma ocorrência de discriminação as crianças negras na escola. Além do mais eles não possuem nenhum conhecimento da Lei 10.639, de 09 de Janeiro de 2003, que institui a obrigatoriedade da inclusão de História e Cultura Afro- Brasileira no Currículo escolar, assim como a comemoração do 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, nas escolas.
A monografia da Lucileide é apenas mais uma das muitas pesquisas que mostram como a cultura de discriminação ao negro e disseminada de maneira velada pela sociedade através da escola, da campanha feita pela mídia contra as cotas (isso é outra historia que não cabe aqui) e até nas famigeradas novelas da Rede Globo, Record e companhia, onde os papeis dados a negros são sempre de empregada domestica assediada pelo filho do patrão, favelado, bandido. E se a mulher e negra então nem se fala.
Mas voltando aos livros didáticos, é necessário que os professores tomem conhecimento da Lei, e tenham uma formação critica sobre o assunto (apenas um deles tinha curso superior).É essencial também a participação destes na escolha dos livros que serão usados na sala de aula, que façam uma discussão seria com os alunos sobre o que o livro apresenta como realidade, e se isto condiz com a sua vivência.
Nós aprendemos na Pedagogia que a escola é sim reprodutora de um sistema opressor, mas também é a única capaz de romper com este ciclo.Por isso defendemos que toda Educação deve ir no sentido de fazer do homem o dono de sua propia historia para que possa ser sujeito de sua libertação das amarras que o subjugam.


PS: Parabéns para o meu querido amigo Raul, mais novo acadêmico da UnB. Você merece isso e muito mais!


25 janeiro 2008

O que é? O que é?


Não sei o que acontece, mas também digo que é muito engraçado.
Cena 1: estou eu saindo do CCSo (Centro de Ciências Sociais da UFMA) e andando pelo estacionamento quando dentro de um carro eu avisto uma guria de cabelo cacheado me olhando incessantemente. Do nada ela começou a sorrir e me deu tchau.Nunca tinha visto ela em toda minha vida...
Esta mesma cena ( com algumas variações ) aconteceu comigo mais duas vezes só esta semana. as crianças ficavam sorrindo pra mim...Do nada, apenas sorriam.
Ai fiquei intrigada...O que foi que deu nesses guris?Mas depois pensei:

Não é nada!

Na verdade o problema tenho eu, você e todos nós que na maior parte do tempo esquecemos o quando é bom sorrir...Sabe aquele negocio que movimenta uns 17 músculos faciais...Tão poucos...Tão simples e fácil.Como diria um louco (muito sábio como todos eles) que encontrei por ai, o negocio mesmo é rir até rachar o bico!
Mas por que não nos dedicarmos a esse gesto tão simples de olhar as pessoas com um sorriso?Por que não fazemos o mínimo de olhar para as pessoas? Até aposto que você pega o mesmo ónibus todos os dias com as mesmas pessoas a tempos e nem sequer deu um bom dia algum dia desses a qualquer uma delas.É capaz de nem saber o nome do porteiro do predio onde trabalha. Nós fazemos varias descortesias com varias pessoa todos os dias e achamos isso normal...Isso sim é loucura.
Nesta sociedade que se arrota Pós- Moderna, que se diz quebrando todos os paradigmas deveria ter era muita vergonha na cara de não ser como as crianças.Sou a favor da quebra de paradigmas sim, porém um que nunca deveria ser quebrado era o sentimento de irmandade, a solidariedade...A boa educação que trata as pessoas com respeito.
Um simples sorriso pode recuperar a dignidade de muitos, pode até devolver a vida a quem não tem esperança em mais nada.É por isso que gosto dos bêbados, dos loucos, dos marginalizados, das crianças.Por que nessa sociedade onde se insiste nos valores individuais, no desrespeito aos direitos do outro, na banalização da violência, são eles e apenas eles, a quem ninguém dá atenção, a quem todos escorraçam e aos que ninguém quer, que realmente enxergam as verdades do mundo.
Como diria Gonzaginha..."Eu fico com a pureza da resposta das crianças".



06 dezembro 2007

Circulando o Conhecimento

Assim que entrei na Universidade (depois do penoso e excludente vestibular) tinha em mente, e ainda tenho, que toda a produção de conhecimento deve ter o seu retorno social.
Penso isso por que meu pai, com sua consciência
empírica me dizia, quando íamos apanhar cajus dentro da UFMA (saudades da minha infância!) que tínhamos todo o direito sobre a árvore, pois esta foi plantada, assim como a Universidade foi construída, e é mantida com o dinheiro do suor dos trabalhadores honestos que pagam seus impostos a cada prata de feijão.
Grande poeta meu pai, grande consciência de homem do povo. De fato é a massa proletária, os assalariados, que
mantém os Estado de pé através da constante exploração dos seus braços. Não é diferente com a Universidade, este ente dotado de três pernas, essenciais a sua existência e denominação como tal.
A terceira perna (extensão) é desenvolvida em grande parte com as comunidades
circunvizinhas (Bacanga, Sá Viana e Vila Embratel).Estes bairros se utilizam do ônibus que circula no CAMPUS, compram passes no posto, vão ao banco, praticam esportes, dentre outras atividades organizadas pela Universidade.
Isso pra mim é pouco!Pouco por que os investimentos em extensão são insuficientes para a criação de novos
projetos , é até para a manutenção dos já existentes (só para se ter uma ideia o Projeto escola Laboratório, que trabalha com a alfabetização de crianças oriundas destas áreas, existe há 11 anos e passa por sérios problemas de verbas).Também não há uma politica de Assistência Estudantil capaz de manter o aluno de baixa renda até a conclusão dos estudos.
Porém para resolver esta situação o
REItor Natalino Salgado, juntamente com o deputado Gastão Vieira conseguiram um convênio (não lembro agora com quem...) que liberará uma verba de 3 milhões para...A CONSTRUÇÃO DE UM MURO!!!!!
Muro este que irá encastelar a
UFMA e, nas palavras se não me engano do propio Gastão "impedir futuras invasões" (!?).
Agora a pergunta que não quer calar...É a solução para os problemas
elencados acima?
Privatizar o saber
academico e impedir o seu acesso as camadas populares que tem direito a ele começa assim.
Circular o conhecimento e marginalizar, ou como muitos andam fazendo, naturalizar a pobreza a transformando em uma paisagem social é o melhor caminho encontrado por
Natalino, Gastão e Lula (pensou quê ele ia escapar!?) pra tratorar o problema de forma rápida...Pobre não dá retorno financeiro na Universidade, apenas nas fileiras das linhas de produção (isso se ele conseguir emprego por que como diria o Professor Romildo de Fundamentos Economicos, depois do avanço da microeletronica e da robótica...).
E neste processo de "higienização social" os próximos seremos nós, os atrevidos que transporam os muros...não nos sobrará sequer os cajus.