08 março 2008

Da Mundoca à Gerusa


Eu já ouvi alguem dizendo que todo dia é dia da mulher...Achei isso muito piegas. Lembro que quando era pequena, na escola eles falavam muito superficialmente do por quê desta data.Superficial pelo fato de dizerem muito pouco sobre a luta das operarias por direitos trabalhistas, luta que terminou de maneira trágica, e enfatizar nos beijinhos e nos parabéns que você tinha que dar pra mamãe neste dia, além das rosas é claro! As rosas não podem faltar.
E eu sempre dava rosas pra minha mãe, ia num livro e copiava um poema pra recitar pra ela, coisa que a deixava emocionada. Mas pra mim sempre faltava algum esclarecimento maior sobre aquilo tudo. Então perguntei:

Por que não tem dia do homem também mamãe?

"Por que o homem tem oportunidades de fazer o que bem entende todos os dias, coisa que a mulher não tem minha filha."

No tempo da minha mãe era tudo muito diferente, não tinha essa história de direitos iguais. Ela e as irmãs aprenderam com a minha avó, que aprendeu com a mãe dela, que as filhas eram do pai até o momento de se tornarem do marido.Nunca eram delas. Meu avô era um homem rude, nunca foi carinhoso com ninguem, e minha avó que sempre foi uma fina flor, sofreu muito com isso. Sofria calada pois foi educada pra isso, pra nunca levantar a voz, nunca reclamar. Ela, semi- alfabetizada, trabalhava muito pra custear a educação dos filhos já que meu avô sempre dizia que não sabia ler e mesmo assim continuava vivo, mas ela não queria o mesmo destino pra minha mãe e meus tios e tias.
Elas tiveram que sair de casa, passar vexames nas casas dos outros. Minha mãe e minhas tias tiveram que trabalhar em troca da roupa, da comida e do teto, além da oportunidade de estudar, perderam a infância cuidando dos filhos dos outros. E quando queriam voltar pra casa minha avó dizia que não, que lá elas não teriam nada.
Longe da casa dos pais minha mãe foi aos poucos descobrindo o mundo, descobrindo que podia falar, de fazer muitas coisas, de casar com quem queria e não com quem meu avô desejava. E decidiu pelo meu pai, casou sem ninguem saber, e por ser a mais velha terminou de criar todos os irmãos.Ainda me lembro dos meus tios mais novos morando aqui.
Dona Maria Dezimar, minha mãe, sempre me ensinou muitas coisas, nunca me escondeu nada sobre a vida e sobre as pessoas. Sempre disse que eu deveria estudar muito, que meu melhor marido era minha inteligencia, meu trabalho, as coisas que eu poderia conquistar com o meu esforço, sem depender de ninguem. Ela não me mandava calar a boca, e Dona Mundoca, minha avó, sempre dizia que isso era mau.Pobre Mundoca, que só agora, depois da morte do meu avô sentiu que podia falar. Pobre Benedito, meu avô, que somente quando sentiu que ia morrer admitiu que sempre nos amou e conseguiu chorar. E nós choramos com ele.
Hoje eu tenho vinte anos, tenho consciência do papel dado a mulher na sociedade, e de que eu não quero me enquadrar neste papel. Os livros me ensinaram muito, mas se não fosse minha mãe eles não teriam chegado até mim. E mesmo quando eu não tinha a noção total da magnitude que este dia deve representar na luta de tantas mulheres, eu tinha a secreta certeza de que minha avó, minha mãe e todas as minhas tias, por tudo que elas passaram mereciam minha gratidão e homenagem pelo exemplo dado.


PS: Só pra constar ,nesse dia da foto a Mundoca tava me dizendo "pra eu parar de molecagem".Essa mão no cantinho e da minha mãe.

29 fevereiro 2008

Preconceito se aprende na escola


Essa semana fui pega de surpresa nos corredores da UFMA pela minha colega de curso Lucileide Martins, muito feliz por sinal já que estava indo apresentar sua monografia. aproveitou a oportunidade e me convidou para assistir.
Nunca tinha tido a oportunidade de ver uma apresentação desse tipo, ainda mais com um tema tão interessante:

"A representação social do negro nos livros didáticos".

Interessante pelo olhar critico sobre os até então inocentes livros utilizados pelas crianças de 1ª a 4ª serie do ensino fundamental das escolas municipais de São Luis.Dentro deste conjunto foram estudados apenas os livros de História, e a maneira como os professores ministravam os conteúdos relacionados aos negros na sala de aula, e como enxergavam o tratamento dado ao negro nestes livros.
Através do estudo das imagens contidas neste livros pode-se notar que na maioria das vezes as imagens mostravam o negro em situações estereotipadas, de marginalidade social, desestruturação familiar e econômica (tinha um livro em que 100% das imagens estavam neste perfil).Quando comparadas as imagens nas quais aparecem pessoas brancas é que se pode notar esse processo discriminatório.
O mais grave nisso tudo era a falta de percepção dos professores para esta peculiaridade. A maioria, com excessão de uma professora, afirma que os livros não tratam o negro de maneira estereotipada e não tem conhecimento de nenhuma ocorrência de discriminação as crianças negras na escola. Além do mais eles não possuem nenhum conhecimento da Lei 10.639, de 09 de Janeiro de 2003, que institui a obrigatoriedade da inclusão de História e Cultura Afro- Brasileira no Currículo escolar, assim como a comemoração do 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, nas escolas.
A monografia da Lucileide é apenas mais uma das muitas pesquisas que mostram como a cultura de discriminação ao negro e disseminada de maneira velada pela sociedade através da escola, da campanha feita pela mídia contra as cotas (isso é outra historia que não cabe aqui) e até nas famigeradas novelas da Rede Globo, Record e companhia, onde os papeis dados a negros são sempre de empregada domestica assediada pelo filho do patrão, favelado, bandido. E se a mulher e negra então nem se fala.
Mas voltando aos livros didáticos, é necessário que os professores tomem conhecimento da Lei, e tenham uma formação critica sobre o assunto (apenas um deles tinha curso superior).É essencial também a participação destes na escolha dos livros que serão usados na sala de aula, que façam uma discussão seria com os alunos sobre o que o livro apresenta como realidade, e se isto condiz com a sua vivência.
Nós aprendemos na Pedagogia que a escola é sim reprodutora de um sistema opressor, mas também é a única capaz de romper com este ciclo.Por isso defendemos que toda Educação deve ir no sentido de fazer do homem o dono de sua propia historia para que possa ser sujeito de sua libertação das amarras que o subjugam.


PS: Parabéns para o meu querido amigo Raul, mais novo acadêmico da UnB. Você merece isso e muito mais!


25 janeiro 2008

O que é? O que é?


Não sei o que acontece, mas também digo que é muito engraçado.
Cena 1: estou eu saindo do CCSo (Centro de Ciências Sociais da UFMA) e andando pelo estacionamento quando dentro de um carro eu avisto uma guria de cabelo cacheado me olhando incessantemente. Do nada ela começou a sorrir e me deu tchau.Nunca tinha visto ela em toda minha vida...
Esta mesma cena ( com algumas variações ) aconteceu comigo mais duas vezes só esta semana. as crianças ficavam sorrindo pra mim...Do nada, apenas sorriam.
Ai fiquei intrigada...O que foi que deu nesses guris?Mas depois pensei:

Não é nada!

Na verdade o problema tenho eu, você e todos nós que na maior parte do tempo esquecemos o quando é bom sorrir...Sabe aquele negocio que movimenta uns 17 músculos faciais...Tão poucos...Tão simples e fácil.Como diria um louco (muito sábio como todos eles) que encontrei por ai, o negocio mesmo é rir até rachar o bico!
Mas por que não nos dedicarmos a esse gesto tão simples de olhar as pessoas com um sorriso?Por que não fazemos o mínimo de olhar para as pessoas? Até aposto que você pega o mesmo ónibus todos os dias com as mesmas pessoas a tempos e nem sequer deu um bom dia algum dia desses a qualquer uma delas.É capaz de nem saber o nome do porteiro do predio onde trabalha. Nós fazemos varias descortesias com varias pessoa todos os dias e achamos isso normal...Isso sim é loucura.
Nesta sociedade que se arrota Pós- Moderna, que se diz quebrando todos os paradigmas deveria ter era muita vergonha na cara de não ser como as crianças.Sou a favor da quebra de paradigmas sim, porém um que nunca deveria ser quebrado era o sentimento de irmandade, a solidariedade...A boa educação que trata as pessoas com respeito.
Um simples sorriso pode recuperar a dignidade de muitos, pode até devolver a vida a quem não tem esperança em mais nada.É por isso que gosto dos bêbados, dos loucos, dos marginalizados, das crianças.Por que nessa sociedade onde se insiste nos valores individuais, no desrespeito aos direitos do outro, na banalização da violência, são eles e apenas eles, a quem ninguém dá atenção, a quem todos escorraçam e aos que ninguém quer, que realmente enxergam as verdades do mundo.
Como diria Gonzaginha..."Eu fico com a pureza da resposta das crianças".