15 novembro 2008

O problema do Agressor

Eu deveria ter parado pra pensar nisso a muito mais tempo, só que muitas vezes certas coisas te incomodam mesmo que só no pensamento. Isso porque certos questionamentos não são facilmente explicáveis se utilizando apenas o campo das idéias. É preciso agir em cima destas questões, e na maioria das vezes o mais rápido possível, pois fazem parte de um problema muito grande.
E nesta semana que passou, a grande questão que veio na minha cabeça foi suscitada pela triste noticia da menina que foi violentada sexualmente, morta e encontrada esquartejada dentro de uma bolsa de viajem, na lixeira de uma rodoviaria.
Não me questionei quanto a crueldade do ato, quanto ao sofrimento da mãe, e tão pouco a necessidade de se fazer justiça perante o crime. O meu questionamento surgiu a partir das suspeitas da policia em relação a quem teria cometido o ato, onde a suspeita recaia em certo individuo que já havia sido preso por crimes semelhantes, e que no momento estava em liberdade. Tendo-se a noticia de que após sair da penitenciaria já haveria molestado sexualmente de um garoto.
Violência sexual contra crianças e adolescentes se tornou uma grande chaga no nosso país. O que se torna ainda mais caótico quando em contra partida temos uma legislação primorosa no que diz respeito a garantia de Direitos e proteção deste segmento da sociedade. A exemplo do Estatuto da Criança e do Adolescente que comemora 18 anos de existência, porém sem efetividade alguma.
Trabalho a uma ano e meio com o tema, e posso afirmar que a Rede de Atendimento e Proteção das Crianças e Adolescentes não funciona como tal. Suas falhas em estruturação, capacitação de agentes e planejamento de ações são visíveis. Mas o que isso tem haver com o possível assasino?
O fato é que a Justiça pode até tentar se manifestar de maneira eficiente no que diz respeito a punição dos agressores. Quando há denuncia, e o processo não se perde em meio a interrogatórios infrutíferos e exposição inapropriada da vitima, pode-se de fato caminhar para uma punição de acordo com a gravidade do caso. Contudo o investimento na recuperação destes agressores é nulo.
O que se pode notar desde o principio é que se o agressor não for logo linchado pela população raivosa (afinal Violência sexual infanto-juvenil é algo que choca, criando de imediato o sentimento de repulsa e revolta contra quem o pratica) ele será com certeza estuprado e até morto na cadeia, onde os códigos paralelos não perdoam tal ato. E isso seria um alivio na mente da maioria da população, já que pessoas como estas, se é que podem ser chamadas de pessoas diriam uns, merecem mesmo é morrer de uma morte bem sofrida. Só que o sistema do Bode Expiatório em tese se acabou com o advento da Lei, e não podemos mais levar as coisas no olho por olho.
Todo crime, pela sua natureza de atentado contra a liberdade do outro, não pode ser encarado como algo comum. E em se tratando da Violência sexual infanto-juvenil se torna ainda mais grave, pois a vitima é alguém a priori incapaz de defender-se do outro de alguma forma. Por esta razão, assim como a vitima necessita de acompanhamento e tratamento para ter a chance de recuperar-se do trauma, o agressor também necessita de acompanhamento e tratamento especifico para livrar-se dos intentos que o levaram a cometer o ato. E pesquisas mostram que apenas 2 % dos agressores não manifestam recuperação após o tratamento. Geralmente pessoas que possuem alguma patologia detectada, o que são casos raros.
O caso desta menina poderia virar um exemplo do que seria evitado caso investimentos na recuperação de criminosos dessa espécie fossem aplicados em nossos presídios. O Sistema penintenciario de nosso país precisa de uma grande reforma neste sentido, e a boa noticia é que já há vários estudos e projetos com intuito de tratar e recuperar criminosos para uma possível ressocialização. Porém a falta de recursos entrava a continuidade de tais trabalhos.
Só espero que o Governo e sociedade não demorem tanto a enxergar e pensar sobre esta necessidade, pois o nosso tempo é curto e o trabalho a ser feito é muito para evitar que mais crianças e adolescentes tenham suas vidas desrespeitadas.

05 novembro 2008

Para Thais


A Thais fez aniversário, e eu mandei esse texto como depoimento pra ela no Orkut. Ela é uma grande amiga, sabe muito das minhas coisas, alegrias e desilusões.


Não precisamos contar os amores, nem os anos que passam. Não vamos nos ater as lágrimas roladas, aos risos dados. Vamos recordar, mas nunca vamos viver o que passou. As experiências asfaltam o pedaço novo do caminho e só cabe a nós dizer se haverá espaço para o florescer das rosas e gerânios, que trarão borboletas e beija-flores. A certeza única que fica é que sempre haverá uma menina, uma nêga dançadeira...Ou será ela a princesa da Andaluzia?
Ela baila com agulhas nas mãos tricotando uma teia de corações amigos. Corações que saem de sua boca junto com um hálito de alcaçuz. Ela vai sovando a massa fofa dos bolinhos de chuva, vai deixando saudade e certeza de amizades duradouras para além do mar - sem- fim.
Borboleta do meu girassol, fábula das minhas crianças. Amo-te imensamente amiga Thais.


03 novembro 2008

Formigas e pensamentos esdruxulos


Coisas estranhas estão acontecendo comigo, e tem como principais protagonistas as formigas. Sim esses seres minusculamente extraordinários tem chamado, e muito, minha atenção de uns tempos pra cá.
Tudo começou quando, não mais que derrepente, olho para o monitor do meu celular e lá encontro andando serelepe uma formiga. Tentei chuta-lá delicadamente para fora dali com meu dedo, mas qual não foi a minha surpresa ao constatar que ela estava não em cima, e sim dentro do monitor.

Questionamento 1 - como essa louca entrou ai?

Questionamento 2 - e agora como eu vou tirar essa louca dai?

Sim, eu me importei com a formiga gente, sempre tenho a mania de pensar se por acaso fosse eu ali pressa, e essa historia de se colocar no lugar dos outros faz você analisar pacientemente cada atitude a ser tomada, e também por que os outros fazem certas coisas. Como o meu professor de Antropologia gostava de dizer - Descolorir nossas lentes, e recolorir com as cores do outro.
Então tentei desmontar o celular, só que que não consegui abrir o vidro - Diacho de formiga doida! - e ela andava de um lado para o outro - Caraca o oxigênio ai deve ser mínimo! - a luz do monitor devia estar lhe incomodando, ou ela também estava procurando um meio de sair.
Foram quase duas horas de agônia (creio que mais dela do que minha) até que um certo momento ela parou num canto, e eu percebi que aquele era o fim. E até hoje ela está lá no canto, transformando o meu celular em um ataúde tecnológico. E sempre que eu atendo uma ligação vejo ela, um cadáver no meu telefone, e me sinto uma completa inútil por não saber desmontar um aparelho. Mas será que se fosse eu no lugar dela, ela sentiria tanto assim? Pra mim toda vida tem uma função e um significado, e a morte desta formiga asfixiada no meu monitor me fez pensar se pra todo ser humano a vida faz realmente algum sentido.
As vezes não sabemos por que cargas d'água estamos neste mundo, se estamos realmente para além dos fins de procriação, se estamos com essa bola toda, ou se na realidade somos um bando de babacas. Muitas vezes até temos oportunidade de fazer algo que realmente importe e faça a diferença para além dos nossos interesses, só que preferimos ficar mega confortáveis no nosso sofá, na frente do nosso computador. Nós, como a pobre formiguinha, estamos cercados de luzes, esplendor e tecnologia, mas até que ponto essa atração é realmente compensatória?
Nós pensamos! Contudo vejo o homem mais animalesco que os ditos irracionais. E nesses momentos tenho inveja da formiga, pois ela podia ser uma operaria, porém tinha o seu valor reconhecido no seu meio, e vivia em uma sociedade que sempre prioriza o bem comum onde as hierarquias não funcionam como mecanismos de opressão, e sim como uma divisão harmônica do trabalho que deve ser feito por todos, com grandes recompensas.