13 fevereiro 2009

Santa Maria


Meu trabalho me faz andar um pouco, e a minha mãe me faz andar muito. Uniu-se o útil ao agradável, e fomos a rua, andar.
Ela tinha que ir buscar o Alex na escola, mas era só mais tarde, por isso tínhamos que dar um tempo por ali. E eu lembrei que tinha de ir na Pastoral da Criança, tentar marcar uma entrevista, e também comprar Multi mistura pra mim (isso faz muito bem). Então traçamos uma linha reta.Cruzamos a Sete de Setembro, A Rua Grande, da Paz e do Sol, até chegarmos a Rua dos Afogados.
Quando eu era pequena passava muito por essa Rua, e tinha medo, por causa do nome, pois morrer afogado deve ser uma coisa horrivel, e aquele lugar, pelo plural, estava cheio deles na minha fértil cabecinha infantil. Porém, quanto mais perto eu chegava da esquina, mais essas ideías eram substituídas pelo cheiro de pão quentinho que vinha da Santa Maria.
E eu senti esse mesmo cheiro essa semana, e enchi meu olhos de lágrimas com o sabor da minha infância. De quando eu acordava seis horas da manhã, com o som de um sabiá que tinha seu ninho na árvore do quintal, proximo a minha janela, e o meu pai que sempre me perguntava se o sabiá dele (que sou eu) sabia assobiar.
Era ele quem me arrumava pra ir a escola, pois a mamãe quase sempre ficava de plantão na clínica (ela era auxiliar de enfermagem). E me fazia umas tranças tortas que eu odiava; vestia minha camisa; amarrava meu tênis; deixava eu levar minhas bonecas de porcelana pra escola; me fazia suco de groselha, daqueles de pacotinho (que eu também odiava); e comprou pra mim, uma menina, a mochila com o logotipo do Batman.
Eu me lembrei, a cada passo dado rumo a praça de Santo Antônio, de como tudo era grandioso, e o percurso de agora era antes mais longo, e as ruas tão largas hoje mal me cabem.

E a praça a perder de vista, onde uma vez eu desmaiei no meio de uma missa, e onde o Padre Antônio Vieira deu o seu famoso Sermão aos Peixes, hoje era vencida com três pernadas.
Meu horizonte outrora grandioso, ficou feito mosquito na minha mão... Mas onde está o prédio que ficava a minha escola? Ei moço, onde fica mesmo a Pastoral da Criança?
O guardador de carros apontou com o braço um muro alto e um portão de ferro, e qual não foi a minha surpresa a verificar que detrás dali ficava o que foi um dia minha velha escola. E com três passos venci o jardim, já dentro da construção tão pequena, onde antes eu andava o mundo inteiro para poder visitar o Tony, que fazia o Jardim III.
E enquanto a mulher foi buscar os saquinhos com a Multi mistura eu via o meu infinito sumir, como aquelas roupas baratas que encolhem depois da máquina de lavar. E saí de lá costurando os retalhos, minha mãe apertou a minha mão - Nem parece que faz tanto tempo, lembra que o Seu Zequinha morava aqui?
E o cheiro da Santa Maria (agora sem o seu velho português) ainda estava lá, me chamando. Quando entrei, e vi os biscoitinhos salgados que eram minha alegria na volta pra casa, de minha infância de tranças tortas, percebi que por mais que o tempo nos roube os anos, a inocência, o medo, a pureza... Mesmo assim, o que é bom estará presente em todas as lembranças de nossa vida.

5 comentários:

Fóssil disse...

Esse tipo de texto pra mim é covardia! Qualquer coisa que fale de infância me deixa tocado. E eu sempre penso na medida das coisas; me espanto sempre com a pia do banheiro que até hoje é a mesma, mas que eu só alcançava pra escovar os dentes com um banquinho. Tomara que eu nunca perca essas sensações, cheiros, gostos, visões e eu vou saber que ainda não perdi o tempo que passou :) Parabéns pelo texto!

Dianne Nogueira disse...

Parabéns! Lindo! Se um dia eu fizer um livro, posso incluir esse texto?


Arrasou! Deu vontade de ir na Santa Maria...

Anônimo disse...

ponha http://aduanapt.blogspot.com/
na sua lista de blogues qye eu ponho o seu na minha

Arih disse...

Aqui ta lindo!

MayCon SilveiRa... disse...

Nossa Gerusa, vc as vezes pega pesado, me fzndo chorar com esses textos lindos, onde as palavras viram imagens em minha mente...

tah muito lindo o texto...